sábado, 27 de março de 2010

Ensaio sobre o despertar.

Vou contar uma história.
Ignorem o fato de que é um musical.
Ignorem o fato de que é um musical da Broadway premiadíssimo.
Ignorem o fato de que eu amo musical.
Ignore o fato de que você, provavelmente odeia.
O Despertar da Primavera me chamou muito mais a atenção por ser TEATRO do que por ser MUSICAL.
É com muito pesar que admito aqui que por várias vezes, o que vemos aqui no Brasil não chega perto de ser teatro, temos muitos shows musicais, e pouco teatro. Não é o caso dessa peça. Não mesmo. Nesse caso a música entra onde ela deveria, tendo o papel que deveria que é ajudar a contar uma história. E o faz lindamente.
O clima da peça começa meio denso. Orquestra e atores se empenham pra colocar suavemente uma pulga atrás da orelha do espectador. Quando você menos espera, esse clima de tensão dá lugar a uma inocente voz.
Pronto.
Você já está no palco.
E é lá que você vai ficar, completamente hipnotizado pelos meninos rebeldes e pelo o perdido. Já na 4º música você desenvolve um carinho por esse rapaz esquisito. Querendo que alguém conte logo o motivo de ele ser assim.
Primeiro choque.
Cenas mais ousadas te fazem rir. Aquele riso nervoso de “ai meu Deus do céu, ele ta fazendo isso mesmo?”. Melhor. Um riso do tipo “Ai meu Deus do céu, eu posso estar gostando de ver essa cena?”. Sim, ele está. Sim, você também.
Sem perceber você já está colocando em cheque os seus pudores. Os verdadeiros, e os sociais. Você junto com as personagens se pega com vontade de descobrir. De entender. De saber.
Segundo choque.
Dessa vez a inocência mostra sua face ruim. Você sente raiva. É como se tivesse realmente acontecido com você. A vontade que dá é de sair gritando o que aconteceu. Mas você, assim como elas, não o faz.
Mas não é só a boca que se cala. A sensação que dá é de que todos os seus órgãos vitais se calam junto. Em respeito. O silêncio é cortante. Inquebrável. Doído.
A perturbação continua. Você não entende bem o que está acontecendo. Porque alguém gostaria de sofrer? “Eu nunca senti nada”. E junto com ela você sente.
Você começa a sentir as mesmas sensações. O medo, a vontade de abraçar, a curiosidade, a dúvida, a euforia.
“Eu acredito que não é pecado”
Intervalo. Dá vontade de comentar com todo mundo. Conhecidos e desconhecidos. Dá vontade de abrir uma mesa de debates. E o que mais se ouve nesse momento é: Nossa. Que incrível!
Começa de novo. E numa linda coreografia de gestos você retoma todas as sensações anteriores.
Pronto.
Já está no palco de novo.
Bem na hora de presenciar alguns dos melhores momentos de toda a narrativa.
Você entende a loucura. Você percebe a inocência doce. Dá vontade de pegar no colo. De brincar.
Mas nem ele, nem você aceitam o convite.
De novo o silencio. Agora, sem perceber você está sem respirar. Mesmo. Você sabe o que vai acontecer, mas não consegue aceitar. É como se na sua cabeça você estivesse gritando: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO. Uma pausa. Ele deve ter ouvido o seu grito.
Não.
De novo sem respirar mal dá pra perceber as lágrimas escorrendo.
O momento que a mão toca o peito é o momento que a respiração volta, junto com a percepção do que realmente está acontecendo. E mais lágrimas. Muitas delas.
Os adultos.
A vontade de gritar retorna. Mas agora o grito é outro. Apontando culpados.
Outro choque.
Agora choque de palavras.
BLA BLA BLA
O que são as palavras? Deixa falar!
Seus pés se balançam no ritmo e você se pega gostando da música.
Aí, um momento esclarecedor e óbvio para nós seres do século XXI. Como é bom viver em um tempo onde as coisas são faladas, explicadas e aceitas.
Ou não.
Por que, o que acontece em seguida ainda acontece hoje em dia. Em níveis e estilos diferentes mas acontece.
E é nisso que você vai pensar nas horas que se seguem depois do espetáculo acabar.
A peça foi escrita há 200 anos e ainda é atual.
Tudo. Eu disse TUDO o que acontece na peça ainda acontece hoje em dia.
A falta de diálogo, informação. A teimosia. Intolerância. Inocência. Tudo isso acontece hoje em dia de maneira disfarçada.
Não acredita?
NARDONI.
O que mudou foi o veredito.
Eu realmente recomendo. Vá ao teatro Sérgio Cardoso. Sinta tudo isso que eu senti e mais. Muito mais. Eu tenho certeza absoluta que você também vai se apaixonar.
Vou voltar a escrever aqui sobre essa peça mais vezes. Merece.
DESPERTEM-SE!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Vim pra tirar o pó.
Pra dizer que muita coisa mudou.
Talvez coisa demais...
Muita coisa de menos.
Mas mudou.
Mudou o cabelo porque mudou a atitude o que fez mudar a forma de ver, e conseqüentemente ser vista.
Mudou o trabalho porque mudou o foco, que na verdade não mudou, só ficou mais claro, mais evidente e mais corajosa.
Mudou a escola porque mudou o objetivo, que na verdade não mudou, só ficou mais forte, mais real e mais presente.
Em toda essa mudança eu perdi muita coisa. MUITA coisa ficou no caminho dessas decisões. E muita coisa voltou.
E tudo que voltou foi bom.
Voltou a conversar mais com quem tem a mais doce voz do mundo, quem a criou e quem faz tudo fazer mais sentido, Deus.
Voltou a pensar nos outros e em si mesma. A acreditar que essas duas coisas conseguem viver juntas.
Voltou a querer muito.
Voltou a ficar sozinha, o que trouxe várias novas canções e palavras bonitas.
Nesse tempo de transição, muita coisa teve que ser questionada.
Muita coisa está sendo questionada.
A vida mudou muito.
Está mudando.
E tem hora que dá medo. Tanto medo que faz até a extremidade mais extremidade do corpo, a pele, tremer.
Faz a lágrima querer fugir de dentro dos olhos e rolar sobre a face.
Faz o canto virar grito, e o grito virar música.
Faz a noite virar dia.
E o dia virar preocupação.
Faz o passado querer virar presente e o futuro não sair da cabeça, assassinando o presente.
Mas, no meio disso tudo, aquela voz mais gostosa de ouvir faz tudo ter sentido.
E aparecem oportunidades.
Que dão medo.
Mas o novo cabelo, com a nova atitude não permitem a fuga.
Aí, aparece o sorriso, a aceitação, o elogio, o SIM.
Mesmo que não seja um sim completo.
A sensação é de: Ok. É isso. Tá chegando.
Porque, nesse e em outros tempos, todo mundo acreditou. Menos eu.
E agora, está sendo provado pra todo mundo e principalmente pra mim, que tá chegando. e é isso.
É isso.
Muita coisa mudou.
Por isso vim tirar o pó.